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Fonte da imagem: Wikipedia

 

“Existem hoje em dia professores de filosofia, mas não filósofos. E no entanto é admirável professar porque um dia foi admirável viver. Ser um filósofo não significa apenas ter pensamentos sutis, nem mesmo fundar uma escola, mas amar tanto a sabedoria a ponto de viver de acordo com seus ditames, uma vida de simplicidade, independência, magnanimidade e confiança. Significa resolver os problemas da vida não só teoricamente, mas praticamente”.* 

 

* Essa tradução é minha. O texto original de Thoreau pode ser encontrado na página 13 de seu clássico Walden; or life in the woods. A edição consultada foi essa aqui.

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Fonte da imagem: Wesleyan University

 

“O que está sendo considerado aqui é a ressurgência ou retorno da ciência no método histórico, só que meu foco não é sobre a ‘ciência’ em si, mas sobre a fantasia daquilo que a ciência é ou poderia ser para a prática da história. O mais recente entusiasmo pela ciência é novo e problemático porque acredito que serve para encerrar a discussão e debate entre historiadores e cientistas, ao invés de promovê-lo, e também porque o ímpeto para ele, na minha opinião, é primariamente financeiro”.*

 

* A tradução aqui é minha. Essas palavras foram tiradas do provocativo artigo Just the Facts: The Fantasy of a Historical Science, do historiador norte-americano Ethan Kleinberg. O artigo pode ser acessado aqui.

Com algum atraso por causa da finalização da tese concluí, finalmente, a leitura do livro do Luc Ferry, segundo da série “Aprender a Viver”, intitulado “A Sabedoria dos Mitos Gregos”. De forma ampla,a proposta de Ferry é identificar, na sabedoria implicada nos mitos gregos, a gênese da filosofia na Grécia. Nesse sentido, e corroborando com a tese do grande helenista Jean-Pierre Vernant, defende que “o nascimento da filosofia na Antiguidade não constituía um ‘milagre’ insondável, como tantas vezes se viu e repetiu, mas se explicava por um mecanismo que se pode dizer de ‘laicização’ do universo religioso em que vivam os gregos” (FERRY, 2012, p. 418).

Em sua conclusão, me chamou particularmente atenção uma consideração sobre alguns erros que temos que evitar para compreender a filosofia, entre esses, um que nos interessa em particular, por dizer respeito a uma concepção que nos é muito comum no meio acadêmico e escolar. Com a palavra, o filósofo Luc Ferry:atena

“[…] igualmente errado é reduzi-la à estrita dimensão da teoria. Com demasiada frequência, nos liceus e universidades, ensinamos aos alunos a ideia de que a filosofia é reflexão, espírito crítico, argumentação. Sem dúvida é bom que se saiba refletir, criticar, e argumentar para pensar direito, e isso, claramente, faz parte da filosofia. Mas da mesma forma concerne à sociologia, à biologia, à economia e até ao jornalismo. Como tive oportunidade de explicar em “Aprender a Viver I”, a reflexão crítica não é de modo algum a propriedade característica da filosofia. O que a mitologia lega de mais profundo à filosofia antiga, sua herdeira direta nesse ponto, é que a questão essencial é pura e simplesmente a de saber como chegar a uma vida boa no coração desse cosmos, mesmo já secularizado e desdivinizado à maneira platônica e estóica. […] a interrogação fundamental dos filósofos já se encontrava inteiramente pré-formada quando ela emerge; tratava-se de como vencer os medos ligados à finitude para alcançar a sabedoria, isto é, a serenidade, que é a condição única para a salvação, no sentido etimológico do termo, o que nos salva da angústia da morte inerente à nossa condição humana.

“É nesse sentido que a análise da passagem da mitologia para a filosofia confirma em todos os pontos a ideia de a filosofia ser de fato uma ‘doutrina da salvação sem deus’. É uma tentativa de se salvar dos medos sem recorrer à fé nem a uma ser supremo, mas exercendo a simples razão e tentando se virar por conta própria. […]”(2012, p. 424-425).

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A Confortadora – 2010 (silicone, fibra de vidro, aço, pele de raposa, cabelo humano, roupas 60 x 80 x 80 cm)

O trabalho da artista Patricia Piccinini apareceu de surpresa nas leituras que fiz de alguns textos de Dona Haraway, em especial no seu trabalho sobre espécies companheiras. Haraway, ao destacar o conjunto de esculturas de Piccinini  aponta que a sua abordagem coloca se como um “experimento radical de ficção científica feminista“, na medida em que desafia o senso de responsabilidade e importância do cuidado mútuo, mesmo em um contexto de diversidade aparentemente chocante. Essa abordagem artística se dá em uma sinergia teórica bastante útil para expressar de maneira eficiente muitas questões dos estudos das multiespécies. Os trabalhos mais notáveis de Piccinini são esculturas hiperrealistas que são relacionadas à temas como coexistência e alteridade e questões éticas da biotecnologia. Trata-se de uma exploração das ambiguidades de uma filosofia do encontro.

Em um texto chamado In Another Life, Piccinini sintetiza de maneira bastante precisa o seu propósito artístico, estimulada pelas idéias contemporâneas de natureza, natural e artificial e como as mesmas se articulam na sociedade contemporânea:

“O perigo aqui é confundir criação com controle. Apenas porque nós podemos criar e manipular as coisas, não significa necessariamente que nós podemos controlar nossas criações. Qualquer pessoa que se aventure na criação faz bem em lembrar que logo que alguma coisa passe a existir, nós começamos a perder o controle sobre mesma

Tive a oportunidade de ter contato com as obras de Piccinini na semana passada na sua exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil no Rio de Janeiro, a exposição vai até o dia 27 de junho. Para mais informações sobre o trabalho de Piccinini confira a sua página oficial aqui .

 

Esse artigo foi apresentado pelos três membros desse blog no VI Encontro Regional de História da ANPUH-RN, Assú, 22 a 25 de junho de 2014. Além da excelente oportunidade de sintetizar algumas discussões que aconteceram aqui nesse blog a viagem para Assú teve passagens curiosas, especialmente com o acolhimento de um “colega da teoria” de Ouro Preto, um nômade da história (que ainda deu uma esticada para Natal). Essa viagem foi sobretudo uma excelente oportunidade para um reencontro, pois desde 2012 estamos em cidades diferentes fazendo o curso de doutorado. Uma das características que destaco desse artigo foi o seu nascimento a partir de discussões nos textos desse blog, e dos “encontros do Guaraná”.

O artigo apresentado na UERN de Assú foi dividido basicamente em três partes, na qual cada um de nós atacou as consequências e causas da disjunção entre teoria e prática no “ofício do historiador”. Na primeira parte, desenvolvida por Diego, é colocada uma importante discussão sobre a ideia de crítica pautada por um “adjetivismo” irrefletido, seguindo uma discussão recente da historiografia brasileira sobre um posicionamento que não se permite avançar na discussão dos conceitos. Isso apontaria para uma “deficiência congênita” na formação de um historiador que não é educado para discutir conceitos, pressupostos e metodologias. Tal problema de formação teria sua origem da dicotomia entre teoria e prática e um certo isolamento da primeira como especialidade isolada do “ofício do historiador”.

Stego Encontro AssúNa segunda parte, Felipe continua a desenvolver o problema da teoria x prática, colocando de que maneira ambas categorias tornaram-se dicotômicas no trabalho do historiador. Tal divisão do trabalho do pensamento em questões que são vulgarmente entendidas como “objetivas” (de documento) e “subjetivas” (de referencial teórico), se reflete na argumentação de  Hillary Putnam sobre a separação entre valores e fatos, que cria uma falsa dicotomia. Dessa forma, separação entre teoria e prática no trabalho do historiador leva a um empobrecimento da discussão intertemática. Tal divisão de trabalho entre “trabalho com a teoria e historiografia” e trabalho com a “história mesmo” (como já ouvimos bastante) deve ser vista como uma falsa dicotomia que empobrece a própria reflexão histórica enquanto conhecimento.

Na parte final procuro explorar alguns elementos históricos que posicionam a teoria em oposição à prática. O afastamento das humanidades da reflexão filosófica, dada uma necessidade de profissionalização e autonomização dos campos do saber, direcionou para um entendimento de teoria que não é vista como prática. Ou seja, apostou demasiadamente na falsa dicotomia entre o “pensar história” e o “fazer história”, praticamente esterilizando ambos os domínios de contam inação mútua a partir de um pressuposto teórico.

Acredito que ainda há muito por fazer e espero que possamos desenvolver essas ideias em materiais futuros de maneira mais refinada. O artigo pode ser lido na íntegra aqui a partir da página 262.

 

 

 

Entre 1965 e 1966, estima-se que mais de meio milhão de pessoas foram assassinadas de forma brutal na Indonésia, em um dos maiores massacres da história recente. Hoje, ao chegar nesse país, o cineasta norte-americano Joshua Oppenheimer descobre que os perpetradores desse extermínio não foram punidos, continuam a governar o país e, em muitos casos, dizem ter orgulho do que fizeram.  

Oppenheimer pediu então que eles recriassem, da melhor forma possível e do jeito que eles quisessem, esses mesmos assassinatos. O resultado disso pode ser visto no assustador e surreal documentário The Act of Killing, vencedor de inúmeros prêmios e indicado ao Oscar em 2013. O trailer desse documentário pode ser visto aqui.

O seu mais recente documentário, intitulado The Look of Silence, foi lançado ano passado e é uma espécie de continuação do The Act of Killing. Nele, Oppenheimer decide fazer algo ainda mais difícil e perigoso: acompanhar um homem chamado Adi em uma série de entrevistas com os próprios assassinos de seu irmão, morto no genocídio de 1965. E elas ocorrerão no mesmo país que esses homens governam e ditam as leis. O trailer desse documentário pode ser visto aqui.

No vídeo que colocamos aqui, esse brilhante e corajoso cineasta fala sobre a arte de fazer documentários, suas principais influências (que incluem Jean Rouch e o cinéma vérité) e a sua preocupação com a ideia de inovação e criatividade.